PANORAMA DAS LOJAS DE BAIRRO 2019: DOS FORNECEDORES À INTERNET

Dando sequência ao artigo da edição anterior, abordaremos novas questões relativas ao dia a dia dos lojistas de bairro, no que diz respeito aos temas: pedreiros, presença feminina na loja, Faça Você Mesmo, programas de fidelidade e cursos a distância. Utilizaremos, ainda como base, a pesquisa Panorama das lojas de bairro 2019, realizada pelo DataMkt Construção – sistema de inteligência de mercado cogerido por Leroy Merlin, Eucatex, Votorantim Cimentos e Deca –, que entrevistou 720 lojistas de bairro divididos nas quatro maiores regiões do Brasil, entre os dias 04 e 24 de outubro de 2019.

Na matéria anterior, vimos detalhadamente como os lojistas estão se desenvolvendo ao utilizar a internet para a divulgação de suas lojas e venda de produtos, simultaneamente a outras modalidades mais tradicionais. E, nada mais tradicional no setor do que a relação entre Lojas de Bairro e Pedreiros.

PEDREIROS E CADERNETA DE COMPRA

Mesmo com as evoluções tecnológicas nas formas de pagamento, a caderneta de compra ainda tem um espaço significativo no cotidiano das lojas. Também, pudera, pedreiros e executores, em geral, possuem uma estreita relação com as lojas próximas a obra em que estão trabalhando. Apenas para reforçar esse aspecto, na pesquisa do ano passado, que foi publicada na edição de janeiro de 2019 da revista Revenda Construção, detectamos que o principal perfil dos clientes das Lojas de Bairro era o do dono (a) da casa em que estava sendo feita a obra, acompanhados (as) pelos pedreiros, pintores, eletricistas etc.

Por isso, 43,5% dos lojistas entrevistados disseram abrir contas para que os pedreiros peguem o que precisam durante a realização da reforma. Na região Sudeste, esse número sobe para 48,9%, seguida pelo Sul e Centro-Oeste, ambas com 46,7%, e, bem mais distante, pelo Nordeste, com apenas 31,7%, como podemos ver no gráfico 1.

É provável que esse descolamento do Nordeste em relação ao restante do Brasil, tenha a ver com a inadimplência ou alta incidência de calote, o que faz com que os lojistas dessa região se demonstrem menos dispostos a conceder crédito por meio de caderneta para os executores.

Mas o fato é que, se resgatarmos dados do Painel Comportamental do Consumo de Materiais de Construção 2018 – realizado pelo DataMkt Construção, que entrevistou 900 consumidores brasileiros que haviam feito obras residenciais, entre setembro de 2017 e agosto de 2018, 66,7% disseram que os pedreiros recomendaram a loja na qual poderiam ser comprados materiais para as reformas, sendo que, 30,9% indicaram Lojas de Bairro; 20,5%, Depósitos de Materiais Básicos (que é um outro nome dado para as Lojas de Bairro); 17,4%, Home Centers/Lojas Grandes e, 14,9%, outros tipos de lojas, numa média de 1,4 indicação de loja por pedreiro contratado.

Aos fornecedores pode ser interessante o estudo e adoção de mecanismos tecnológicos e mais confiáveis para a concessão de crédito aos pedreiros por meio do ponto de venda, reduzindo eventuais inadimplências, calotes e estreitando ainda mais essa relação.

O que parece ser um sistema ultrapassado, na verdade, é um desafio para aprimoramento e aumento de rentabilidade.

INTERNET

Um dos pontos mais relevantes do artigo anterior, diz respeito ao descompasso entre utilização de sites das lojas e uso das mídias sociais para promovê-las. Enquanto apenas 40,3% dos lojistas de bairro nas quatro regiões possuem sites, 62,4% desses mesmos lojistas, usam as mídias sociais para promoverem seus negócios e venderem mais.

Ora, a criação e utilização dos sites demandam um rigor técnico e investimento muito maior do que, simplesmente, postar promoções da loja no Facebook, por exemplo. Criar uma Fanpage é extramente fácil, enquanto que, colocar um site no ar, não.

Sobre esse aspecto, quando confrontados com cinco afirmações para estabelecer graus de concordância, “eu participaria de cursos oferecidos pelos fornecedores sobre como usar a internet para vender mais” foi a que obteve o maior grau nas quatro regiões, com concordância total de 64,7%, e, parcial, de 13,8%, totalizando 78,5% (Top 2 Box).

Essa é uma conjuntura favorável para a formatação e a aplicação de programas de treinamento e inclusão digital: a utilização, ainda que de maneira pouco profissional da internet, com resultados positivos e somados a uma vontade de aprender mais.

Interessante que esse desejo é notório no Nordeste e Centro-Oeste, com Top 2 Box de 80,5% e 80%, respectivamente, enquanto no Sul e Sudeste, caem para 78,9% e 74,5%, respectivamente, sugerindo que cursos com esse escopo, possuem também a vantagem de proporcionar a descentralização do conhecimento.

PROGRAMAS DE FIDELIDADE

A segunda afirmação com maior grau de concordância foi “os programas de fidelidade, que dão benefícios para mim e para a loja, me estimulam a vender mais”, com 52,5% concordando totalmente e, 14,3%, concordando parcialmente, com Top 2 Box de 66,8%.

A região Centro-Oeste é a que se mostrou, destacadamente, mais favorável para essa modalidade de relacionamento fornecedores/varejistas, com Top 2 Box de 76,1%; seguida pelo Sul, com 66,1%; Nordeste, com 64,5% e, Sudeste, com 60,6%.

De qualquer maneira, a oferta de cursos está intrinsecamente ligada aos programas de fidelidade e premiações por vendas, criando assim, um círculo virtuoso: aquisição de conhecimento atrelado aos resultados comerciais, resultados comerciais atrelados à aquisição de conhecimento.


FAÇA VOCÊ MESMO

Já, “eu tenho notado um aumento do interesse dos clientes em técnicas e produtos de Faça Você Mesmo”, obteve, nas quatro regiões, 50,4% de concordância total, e 15,3% de concordância parcial, com Top 2 Box de 65,7%.

Destaques para as regiões Sul e Centro-Oeste, com Top 2 Box de 71,7% e 70,6%, respectivamente, caindo nas regiões Nordeste e Sudeste, com 61,1% e 59,4%, respectivamente.

É interessante notarmos que, no Sul, talvez pela ascendência europeia e vocação industrial, exista a percepção de que os clientes têm procurado mais produtos com esse tipo de abordagem e utilização, porém, por outro lado, no Nordeste, há uma menor procura ou, quem sabe, outro nome: autoconstrução.

PRESENÇA FEMININA NAS LOJAS

Por fim, nas quatro regiões, quando estimulados a concordarem ou não com a afirmação “eu tenho notado um número maior de mulheres frequentando a loja”, 43,6% concordam totalmente, e 12,9%, concordam parcialmente, com Top 2 Box de 56,5%.

Essa é a única afirmação cujos resultados ficaram em linha nas quatro regiões, com Top 2 Box de 57,8% no Sudeste; 55,6% no Nordeste; 56,1% no Centro-Oeste e, 55,6% no Sul. Essa linearidade acima de 50% demonstra abrangência e profundidade comportamental.

O FUTURO DAS LOJAS DE BAIRRO

Como frisamos no artigo da edição anterior, os lojistas de bairro, devido a sua proximidade com os clientes e fornecedores, costumam fornecer indicativos brutos, sem os filtros das lojas de maior porte, porém válidos para efeito analítico de todo o mercado.

Esses lojistas estão procurando maneiras de se relacionar com os clientes por meio da internet, utilizando as mídias sociais (só não sabemos se de maneira correta), logo, demonstram grande receptividade aos cursos sobre o assunto, eventualmente oferecidos pelos fornecedores, cursos esses que são, inclusive, bem-vindos como benefício de programas de relacionamento. Também, a procura de produtos associados ao mercado do Faça Você Mesmo, e, a maior presença feminina em suas lojas, é percebida pela maioria dos entrevistados.

Por fim, como podemos ver no gráfico 2, sobre esse item e os demais, 39,2% concordam totalmente com a afirmação de que “a situação financeira da minha loja está melhor agora do que há um ano”, e, 11,7%, concordam parcialmente, com Top 2 Box de 50,9%.

Em outras palavras, nesse momento, a metade dos lojistas avalia que os negócios melhoraram nesse ano. Ao que tudo indica, com o atual andamento da economia, na pesquisa de 2020, a outra metade achará o mesmo.